A JOEIRA

Para quem não sabe, uma joeira é um objecto circular, com paredes em madeira fina, com o fundo de um qualquer material – plástico, metálico, feito a partir de fibras têxteis,… – poroso, que se destina a filtrar as impurezas da farinha ou de outros produtos que se queiram filtrar. É também conhecida pelo nome de peneira e desempenha as funções de um filtro ou de um passador. Trata-se, então, de um objecto útil, para peneirar, separar o que é bom do que não presta ou o que serve para uma finalidade daquilo que serve para outra.
Há algum tempo, na minha escola, foi instalado um destes objectos. No seu formato para a era digital, claro. Chama-se filtro, mas tem o mesmo objectivo: filtrar. Neste caso, filtra aquilo que se pode ver nos computadores da escola. A ideia é, penso eu, evitar que os alunos possam aceder a conteúdos menos próprios existentes na Internet. O problema deste sistema é que ele é cego. Ele não sabe distinguir a impureza da farinha e, por este motivo, corta o acesso dos alunos a conteúdos importantes, permitindo, ao mesmo tempo a passagem de conteúdos que, supostamente, deveria bloquear. Corta também o acesso a conteúdos criados pelos próprios professores, que usam as novas Tecnologias de Informação e Comunicação, impedindo os alunos de usarem esses recursos. Impede que alunos criem páginas com conteúdos como estes na própria escola e impossibilita a sua visão. Barra, finalmente, o acesso dos alunos ao registo fotográfico e em vídeo do seu trabalho, que foi organizado e colocado on-line para ser visto e partilhado por eles.
Estando eu a falar de uma escola, onde hoje existem recursos infindáveis à disposição dos nossos alunos – quem me dera que eu tivesse tido este recurso enquanto aluno no ensino secundário – e vivendo no século XXI, eu esperaria que se insistisse no ensino das TIC e das suas potencialidades, ensinando-os a joeirarem, eles próprios, a informação com sentido de responsabilidade. Esse é, em meu entender, o caminho do futuro.
Isto traz-me à lembrança uma outra situação, também vinda do mundo escolar. Uma outra escola, depois de alguns alunos terem, sem autorização, tirado fotos dentro de algumas aulas, feito alguns filmes de outras e de terem colocado tudo na Internet, decidiu, de forma mais ou menos oficial, proibir a publicação de quaisquer fotos de actividades escolares na Internet. Mais uma vez se corta o acesso a um meio de comunicação que urge aos portugueses ensinar a usar. Assim não vamos longe.
A joeira de antanho dependia dos olhos e braços do seu utilizador para desempenhar as suas funções e era ele que decidia o tipo de malha a usar para peneirar os vários produtos, sempre com o objectivo de obter os melhores resultados. Se estivesse rota tinha de ser reparada ou substituída. Esta joeira também está rota. Se queremos ter um futuro digno desse nome, temos de ter uma nova joeira e não podemos vendar os olhos ao joeireiro.

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